Wednesday, November 02, 2005

INFÂNCIA

Maria Menina - 1

Maria nasceu no seio de uma família pobre.
Tinha três irmãos, dois rapazes, os mais velhos, Rui e Francisco.
Fruto de uma separação seguida de reconciliação por parte dos pais, não fora ela quinze meses mais nova que a irmã Ana. Sempre se sentiu como o fruto que não devia ter crescido, naquela árvore, o patinho feio da família.
Maria foi criada, no mercado local, onde os pais tinham um talho de carneiro e porco, lembra-se de ainda pequenina, a mãe a levantar cedo da cama, a levar ao colo, e lá chegadas lhe fazer a cama em cima da salgadeira, para continuar o seu sono.
Filha de pai alcoólico, sempre admirou a mãe, por ser o leme firme daquele barco, prestes a afundar a qualquer momento.
As suas brincadeiras eram feitas com Ana, uma vez que o pai, de temperamento rígido e autoritário, não lhe dava espaço ou permitia, brincadeiras com outros miúdos da sua idade.
Assim foi crescendo, entre correrias pelo mercado e brincadeiras com a irmã que era a sua melhor amiga.
Maria entrou para a escola, para ela era um suplício, não gostava de lá andar, de espiríto entre o rebelde e o meigo, foi andando, motivada e incentivada pela mãe, cujo sonho era ver os filhos formarem-se na Universidade, facto que lhe tinha sido negado.
Maria não queria, dizia muitas vezes que preferia ser criada de servir que estudar. A mãe pedia-lhe mais um ano, e ela com receio de a magoar, lá ía indo, ano após ano, uns com sucesso, outros com menos, dos quatro, foi a única que conseguiu entrar na Escola Superior da Educação. Os outros ficaram pelo caminho, por um motivo ou por outro.
Quando tinha 5 anos, o seu irmão Francisco, o segundo a nascer na prole (então com onze), falecera. Depois de uma ida ao Rio Mondego, que fazia frequentemente com o irmão mais velho e alguns amigos, atirou-se á água para ir buscar uma bola, resultou uma congestão e falecimento. A mãe isolou-se, Maria lembra-se de a ver chorar, quando se julgava só. A menina só conseguia dar-lhe beijos e fazer-lhe festinhas, palavras não tinha, afinal ainda era uma criança. O pai, esse tornou-se alcoólico inveterado, vivia para beber e bebia para viver.
Maria foi tomando consciência, que na vida cada um vivia as suas mágoas, as suas dores de uma maneira muito própria e pessoal.
Uns choravam quando sós, mas arregaçavam as mangas e lutavam porque afinal ainda tinham três filhos, por quem lutar, outros afogavam-nas no alcóol, forma mais fácil de esquecer, afinal não se sentiam obrigados a mais nada.
O mundo desabara, caira-lhe em cima e como tal, enfiava a cabeça no buraco, permanecendo por lá.
Por essa altura, Maria nutria uma admiração por aquela mãe lutadora, quase próximo da adoração.
Maria tornou-se uma miúda, algo fechada, que se sentia infeliz.

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